quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A Hora da Estrela

Clarice Lispector

Estou extasiado com Clarice Lispector. Depois de ler “A Hora da Estrela”, minha vida de leitor nunca mais será a mesma. Acho que pela primeira vez na vida li um livro propositalmente devagar, para prolongar o meu prazer e a leitura não chegar ao fim.

É triste demais a história de Macabéia, que de tão pobre, só comia cachorro quente. Era tão sofredora que pedia desculpas quando era desprezada pelos outros.E é curioso o desprezo com que a própria autora trata a personagem, como se com ela estivesse exorcizando alguns fantasmas. Afinal, foi o último livro dela, já com problemas de saúde. Logo em seguida ela morreu.

A história é angustiante, e traduz brilhantemente a sensação de desamparo a que todos estamos entregues.

Há pouco tempo houve uma exposição impecável sobre Clarice no Museu da Língua Portuguesa aqui em São Paulo. Impressionei-me com a instalação em si. Mas não fazia idéia da grandiosidade dessa escritora, apesar da fama que eu já sabia que ela tinha.

Agora estou morrendo de curiosidade para assistir ao filme, mas ao mesmo tempo estou apavorado, com medo de que ao assisti-lo, estrague a sensação tão prazerosa que o livro me proporcionou.

Curiosidade: A atriz Marcélia Cartaxo foi a primeira brasileira a ganhar um prêmio internacional. Levou o Urso de Ouro em Berlim pelo papel de Macabéia em 1986. O filme tem também a participação de Fernanda Montenegro no papel da cartomante Madama Carlota e foi exibido com a presença da protagonista em cópia restaurada na Mostra de Cinema de São Paulo deste ano. Leia se interessar.

São tão profundas as reflexões que ela faz! Cada frase tem um peso tão grande e às vezes eu ficava horas divagando sobre uma única afirmação! Por isso fui sublinhando alguns trechos que me impressionaram e vou reproduzi-los aqui, como se de alguma forma seja possível guardá-los para mim.

“Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?”

“Pensar é um ato. Sentir é um fato”

“Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto.”

“Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser.”

“Já que sou, o jeito é ser.”

“Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada.”

“Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser.”

“Em todo caso o futuro parecia vir a ser muito melhor. Pelo menos o futuro tinha a vantagem de não ser o presente, sempre há um melhor para o ruim.”

“Quanto a mim, autor de uma vida, me dou mal com a repetição: a rotina me afasta de minhas possíveis novidades”.

“O que se segue é apenas uma tentativa de reproduzir três páginas que escrevi e que a minha cozinheira, vendo-as soltas, jogou no lixo para o meu desespero (...) Nem de longe consegui igualar a tentativa da repetição artificial do que originalmente eu escrevi (...) É com humildade que contarei agora a história da história.”

“Ela sabia o que era o desejo – embora não soubesse que sabia. Era assim: ficava faminta mas não de comida, era um gosto meio doloroso que subia do baixo-ventre e arrepiava o bico dos seios e os braços vazios sem abraço.”

“Muitas coisas sabia que não sabia entender.”

“- Eu vou ter tanta saudade de mim quando morrer.”

“Iria ela dar adeus a si mesma?”

“A morte é um encontro consigo.”

1 comentários:

Mônica disse...

Absolutamente demais! Gratidão pelo compartilhar!